quarta-feira, 19 de setembro de 2018

NOS CORNOS DA VIDA


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NOS CORNOS DA VIDA
Não!
Não sou filha de ninguém!
Contraceno sozinha nos cornos da vida.
Sou toda a presença!
Sou todas as ausências.

Contraceno com as disformes sombras da cidade adormecida
Numa insónia…rebolo-me na ventania.
Beijo folhas de árvores caídas, gotas de chuva breves e o olhar de
Mais um mendigo…fulminante quanto ausências.
Nada me dói… – somente as palavras lançadas como farpas!


Eu, que nunca fui filha de ninguém!
Em todas as palavras me procuro,
Em quase todas me encontro
Minha certidão de nascimento?
Um deserto feito de penhascos,… ou escorpiões atormentados,
Palavras belas arquitectadas no útero da poesia,…ou prostitutas
Com laços cor de rosa?!
Não sei!
Nada me dói, nada me poderá jamais doer.

Quais insultos, alegrias, ou frustrações…
Eu, não sou filha de ninguém!
Criei-me entre as pedras, e os espaços alheios
E as marionetas,
No erotismo das palavras…
Sou todas as ausências entre as presenças,
Sou todas as reticências…
Nos cornos da vida.

Sou a insónia do vosso sono, a vossa maldição,
E não volto ao que fui, pois que jamais sei o que era
Antes de ser o que sou hoje.

Contraceno sozinha nos cornos da vida.

© Célia Moura, in “Enquanto Sangram As Rosas…”
(Antoine de Villiers Painting)
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