segunda-feira, 3 de setembro de 2018

SOPRA O SONHO

Sopra o sonho por dentro
Das pálpebras em viagem
Enceta o curso habitual noturno
Num corredor sombrio de pestanas

Antes porém cumprimenta
Toda a matéria viva em que tropeça
Sabe o segredo do corpo tem uma pátria
Bioquímica extremamente embrionária

A morte já habita os seus tecidos
Quando os outros de guarda se abastecem
Pronta ao assalto das células
Como se dormisse

A que fins se destina e a que estranhos
bulícios suas últimas vontades?

Não o sabemos

Só mesmo o oceano o incomoda

Zeca Afonso, in 'Textos e Canções'

 
 Portugal
2 Ago 1929 // 23 Fev 1987
Cantor / Compositor 


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