sábado, 25 de maio de 2019

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.


A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.


Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem


Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.


 Vinicius de Moraes

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Se Me Esqueceres

Quero que saibas
uma coisa. 


Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam. 


Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco. 


Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido. 


Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra. 


Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus. 


Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"

Façam por não Verem Mais

MOTE
Vós, ó mães idolatradas,
Façam por não verem mais
Crianças abandonadas,
Tísicas — nos hospitais. 


GLOSAS
Sim, vós, ó mães carinhosas,
Criai as vossas filhinhas,
Educai-as de criancinhas,
Mas não em leis religiosas,
Que essas leis são perigosas,
E p'los homens inventadas.
Não sigam, pois, enganadas
Pelos padres sem consciência,
E amem o deus-Providência,
Vós, ó mães idolatradas!... 


Se quereis ver a religião,
Já noutro tempo atrasado,
Leiam um livro chamado
«Mistérios da Inquisição»...
Lendo aí, compreenderão
Como as pessoas reais
Mandaram fuzilar pais
E mães sem fazerem mal.
Padres e gente real,
Façam por não verem mais. 


E quando se saiba amar
Como irmãos, em toda a terra,
Bombas, revoluções e guerra
Para sempre hão-de acabar;
Nem mais se hão-de encontrar
Mulheres «matriculadas» —
Infelizes que, desonradas,
Ali procuram a morte,
Deixando, aos vaivéns da sorte,
Crianças abandonadas. 


Hão-de acabar os ladrões,
Os patifes, os mariolas —
Quando se fizerem escolas
Das igrejas e prisões.
Hão-de acabar os patrões,
Que são prejudiciais —
Comprando bons enxovais
P'ràs suas filhas — enquanto
As dos pobres vertem pranto,
Tísicas — nos hospitais. 


António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Recado aos Amigos Distantes

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo. 


Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.


Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos. 


Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira. 


Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança. 


Cecília Meireles, in 'Poemas (1951)'

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Depois de Te Haver Criado, a Natureza Pasmou

A mãe, que em berço dourado pôs teu corpo cristalino,
É sup'rior ao Destino, depois de te haver criado.
Quando Amor, o Nume alado, tua infância acalentou,
Quando os teus dias fadou, minha Lília, minha amada,
A mãe ficou encantada, a Natureza pasmou.

Deve dar breve cuidado, motivar grande atenção,
A um Deus a criação, depois de te haver criado.
Deve de ser refinado o engenho que ele mostrar
Desde o ponto em que criar; cuide nisto a omnipotência,
Porque, ao ver a sua essência, a Natureza pasmou.

Ao mesmo Céu não é dado (bem que tanto poder goza)
Criar coisa tão formosa depois de te haver criado.
Naquele instante dourado, rm que teus dotes formou,
Apenas os completou, arengando-lhe o Destino,
Em um êxtase divino a Natureza pasmou.

O Céu nos tem outorgado quanto outorgar-nos podia;
O Céu que mais nos daria depois de te haver criado?
Ninfa, das Graças traslado, ninfa, de que escravo sou,
Jove em ti se enfeitiçou, cheio de espanto e de gosto,
E absorta no teu composto a Natureza pasmou.

O teu rosto é adornado dos prodígios da beleza;
Foi um deus a Natureza depois de te haver criado.
Pôs em teu rosto adoçado a que nunca o Céu formou;
Ela a Jove envergonhou nesse deleitoso espanto,
E de ter subido a tanto a Natureza pasmou.

Todo o concílio sagrado do almo Olimpo brilhador,
Subiu a grau sup'rior depois de te haver criado.
Da meiga Vénus ao lado o teu ente a nós baixou,
Ente que Jove apurou, ente de todos diverso;
Assombrou-se o Universo, a Natureza pasmou.


Bocage, in 'Depois de te haver criado, A Natureza pasmou. (Décimas sobre dísticos)'

terça-feira, 21 de maio de 2019

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


 Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Fernando Pessoa
 

segunda-feira, 20 de maio de 2019

A Borra

Prefiro as palavras obscuras que moram nos
fundos de uma cozinha – tipo borra, latas, cisco
Do que as palavras que moram nos sodalícios –
tipo excelência, conspícuo, majestade.
Também os meus alter egos são todos borra,
ciscos, pobres-diabos
Que poderiam morar nos fundos de uma cozinha
– tipo Bola Sete, Mário Pega Sapo, Maria Pelego
Preto etc.
Todos bêbedos ou bocós.
E todos condizentes com andrajos.
Um dia alguém me sugeriu que adotasse um
alter ego respeitável – tipo um príncipe, um
almirante, um senador.
Eu perguntei:
Mas quem ficará com os meus abismos se os
pobres-diabos não ficarem? 


Manoel de Barros, in 'Poesia Completa, Caminho, 2011'

Remar ...

Juliana Biel


Estamos num barco a vela!
Num oceano ora com águas tranquilas
Ora com águas turbulentas
As vezes o vento não bate
E remar é inevitável
Remar pra onde, quando não avistamos 

terra firme em nenhum dos lados?
Marujos de primeira viagem
Marujos experientes, mas em mares 

nunca navegados
Tudo é questão de ponto de vista 

quando não se sabe para onde remar, 
quando o vento não sopra nem contra, nem a favor!
A bússola as vezes parece não funcionar
Ou esquecemos de como ela funciona
Direção! As vezes ficamos cegos de tanta maresia!
O importante é não perder a fé!
Enquanto tiver remos, enquanto o barco 

for capaz de navegar, naveguemos!
Uma hora a terra firme chega e 

poderemos enfim gritar: 
terra a vista!!!!

Juliana Biel
'recanto das letras'

domingo, 19 de maio de 2019

Poema melancólico a não sei que mulher

Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido. 


Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão... 


Miguel Torga, in 'Diário VII'


Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela
Amo-se assim, desconhecida e obscura
Tuba de algo clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho! 


Olavo Bilac, in "Poesias"

Prende o Teu Coração ao Meu

De noite, amada, prende o teu coração ao meu
e que no sono eles dissipem as trevas
como um duplo tambor combatendo no bosque
contra o espesso muro das folhas molhadas. 


Nocturna travessia, brasa negra do sono
interceptando o fio das uvas terrestres
com a pontualidade dum comboio desvairado
que sombra e pedras frias sem cessar arrastasse. 


Por isso, amor, prende-me ao movimento puro,
à tenacidade que em teu peito bate
com as asas dum cisne submerso, 


para que às perguntas estreladas do céu
responda o nosso sono com uma única chave,
com uma única porta fechada pela sombra. 


Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"

Bernardo é quase uma árvore

Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem
de longe
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho;
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios - e
1 esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando três
Fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
Incompletude?)


Manoel Wenceslau Leite de Barros
(Poeta brasileiro) 


sábado, 18 de maio de 2019

Alípio de Freitas















Baía de Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza

Em Maio de mil setenta
Numa casa clandestina
Com companheira e a filha
Caiu nas garras da CIA

Diz Alípio à nossa gente:
"Quero que saibam aí
Que no Brasil já morreram
Na tortura mais de mil

Ao lado dos explorados
No combate à opressão
Não me importa que me matem
Outros amigos virão"

Lá no sertão nordestino
Terra de tanta pobreza
Com Francisco Julião
Forma as ligas camponesas


Na prisão de Tiradentes
Depois da greve da fome
Em mais de cinco masmorras
Não há tortura que o dome

Fascistas da mesma igualha
(Ao tempo Carlos Lacerda)
Sabei que o povo não falha
Seja aqui ou outra terra

Em Santa Cruz há um monstro
(Só não vê quem não tem vista
Deu sete voltas à terra
Chamaram-lhe imperialista

Baía da Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza


José Afonso - Poeta/Músico/Cantautor

Frases de Pitágoras - III

PITÁGORAS
  1. - Eduque as crianças e não será necessário castigar aos homens.
  2. - "Experimenta-se o ouro com o fogo, a mulher com o ouro e o homem com a mulher."
  3. - A vida é como um espetáculo, entramos nele, vemos o que ele nos mostra e dele saímos no final.
  4. - Coragem é manter domínio da razão em situações limites entre o medo e o desejo.
  5. - Ajude os outros com a carga, mas não a carregue por eles.
  6. - Se me perguntar o que é a morte! Respondo-te: a verdadeira morte é a Ignorância. Quantos mortos entre os vivos!
  7. - Tudo no mundo guarda relação com os números.
  8. - Até o mel mais doce azeda num recipiente sujo.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Um Dia de Chuva

Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é. 



Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa 

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma...
É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.


Vinicius de Moraes 

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Lenha pra lareira

Até quando serei palavras puras
que escolhes para versos
banhado de pudores
sem que percebas minha pele deixando
em teus dedos
vestígios do que mais sinto fome?


minhas palavras não sabem
ser virginais...
sem revelar-sem nuas .
camuflá-las com nuvens
celestiais ao som de harpas
angelicais...
não sei

sei da beleza do singelo
que me doas
e até me aconchego nelas,
sossegada

mas...

hoje quero a roupa
fugindo do verbo
mostrando nua essência
das palavras cruas
querendo se cozer
na fervura
de um poema danado.

hoje prefiro que tua
palavra seja a
brasa do pecado... 


Mary Santos

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Oh retrato da morte, oh noite amiga

Oh retrato da morte, oh noite amiga
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha do meu pranto,
Des meus desgostos secretária antiga! 


Pois manda Amor, que a ti somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga: 


E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade! 


Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores. 


Bocage, in 'Rimas'

terça-feira, 14 de maio de 2019

Dos Mundos

Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo...
Decerto não gostou lá muito do que via...
E foi logo inventando o outro mundo. 


Mário Quintana, in 'Espelho Mágico'

A Gentil Camponesa

MOTE
Tu és pura e imaculada,
Cheia de graça e beleza;
Tu és a flor minha amada,
És a gentil camponesa.


GLOSAS
És tu que não tens maldade,
És tu que tudo mereces,
És, sim, porque desconheces
As podridões da cidade.
Vives aí nessa herdade,
Onde tu foste criada,
Aí vives desviada
Deste viver de ilusão:
És como a rosa em botão,
Tu és pura e imaculada.


És tu que ao romper da aurora
Ouves o cantor alado...
Vestes-te, tratas do gado
Que há-de ir tirar água à nora;
Depois, pelos campos fora,
É grande a tua pureza,
Cantando com singeleza,
O que ainda mais te realça,
Exposta ao sol e descalça,
Cheia de graça e beleza.


Teus lábios nunca pintaste,
És linda sem tal veneno;
Toda tu cheiras a feno
Do campo onde trabalhaste;
És verdadeiro contraste
Com a tal flor delicada
Que só por muito pintada
Nos poderá parecer bela;
Mas tu brilhas mais do que ela,
Tu és a flor minha amada.


Pois se te tenho na mão,
Inda assim acho tão pouco,
Que sinto um desejo louco:
Guardar-te no coração!...
As coisas mais belas são
Como as cria a Natureza,
E tu tens toda a grandeza
Dessa beleza que almejo,
Tens tudo quanto desejo,
És a gentil camponesa 


António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."