sexta-feira, 22 de julho de 2022
quarta-feira, 6 de julho de 2022
segunda-feira, 4 de julho de 2022
Iniciação ao Diálogo
De início bastará que olhes mais vezes
na mesma direcção hoje evitada
(estandartes nos olhos são mais leves
do que no coração duros tambores),
ainda que o teu olhar próprio não rompa
as lajes de ódio com que te muraste.
II
O vento e chuva e tempo, sobre a pedra
passando sempre, hão-de gastá-la: um dia,
antes que a obture o musgo ou algum pássaro
aí faça o ninho fofo, encontrarás,
entre o lado que afirmas teu e o outro,
uma réstia de azul — o azul de todos.
III
Talvez rumor de passos, para além
do muro atravessado aos teus desígnios...
Não porás terra onde se pôs o céu:
ver o que diz o ouvido agora queres,
e onde a rocha fendeu-se cabe um olho
humano e mais a boca do fuzil.
IV
Provando frágil o que acreditavas
inexpugnável, eis que em ti se fixam
atentos outro olho e outro fuzil!
V
Contemplador e contemplado, hesitas
aprendendo na espera o inesperado:
lares como os que tens, jardins iguais
aos teus, o mesmo verde nas lavouras,
no gado solto a mesma desmemória,
na gleba o mesmo esforço pelo outono...
Até na cara do inimigo existe
algo de teu, nunca ao espelho visto.
VI
Adormenta-se o dedo no gatilho,
força é movimentá-lo.
(Maior força
é suportar as formigas do sangue,
a cãimbra incipiente; maior força
é desfazer os nós de engano e medo;
maior força é manter silente a máquina
da morte e só do peito abrir a fala.)
VII
Posta nas pautas máximas da voz,
a palavra resvala entre os granitos
— lava e incêndio primeiro, fumo após,
nuvem, neblina ténue. Claridade.
VIII
Que cresce, a poucos dedos de teus dedos?
É o mapa da amizade que se espalma
na palma de outra mão:
toca essa mão
e o tacto há-de explicar-te geografias
tão permeáveis e altas que seus mares
(só de o pensares) já em tuas veias correm
salgando as ondas que em teus olhos morrem.
Geir Nuffer Campos, in 'Canto Claro'
sexta-feira, 1 de julho de 2022
Sol do meu dia
Se eu fosse nuvem tinha imensa mágoa
Não te servindo de asas maternais
Que te pudessem abrigar da água
Que chovesse das mais!
E sendo eu onda, tinha mágoa suma
Não te podendo a ti, mulher, levar
De praia em praia sobre a alva espuma,
Sem nunca te molhar!
E sendo aragem eu, que pela face
Te roçasse de rijo alguma vez
Que o Senhor com mais força respirasse...
Que mágoa imensa... Vês?
E a luz do teu olhar que me não luza
Um rápido momento a mim sequer,
Como a águia no ar, que passa e cruza
A terra sem na ver!
Mas que me importa a mim! Se me esmagasses
Um dia aos pés o coração a mim,
As vozes que lhe ouviras, se escutasses,
Era o teu nome... sim;
O teu nome gemido docemente,
Com toda a fé de um mártir em Jesus.
Se acaso já em Cristo pôs um crente
A fé que eu em ti pus!
A fé, mais o amor! Porque ele expira
Sem que a ninguém lhe estale o coração;
E eu, se essa luz dos olhos me fugira,
Sobrevivia? Não.
Assim como em ti vivo, morreria
Também contigo, se uma vez (que horror!)
Te visse pôr, ó Sol!... Sol do meu dia!
Astro do meu amor!
João de Deus, in 'Campo de Flores'
segunda-feira, 6 de junho de 2022
sábado, 4 de junho de 2022
Descante
Nunca te pedirei
o que não possas dar,
ai — pedir sombra ao sol,
doçura ao mar?
Tampouco pedirei
mimo que não tenha preço,
ai — de pobre que sou
bem me conheço.
Não saberia aliás
que prenda acrescentar,
brilho ao sol, talvez,
salina ao mar...
E nem te valeria
a espera na promessa,
ai — eterno é o que passa
mais depressa.
Geir Nuffer Campos, in 'Antologia Poética'
quarta-feira, 1 de junho de 2022
Escreve!
Do teu silêncio. Escreve!
Quem é amado deve
Ser grato ao menos, flor!
Se eu fosse tão feliz
Que te falasse um dia,
De viva voz diria
Mais do que a carta diz.
Mas olha, tal qual é,
Não rias desse escrito,
Que pouco ou muito é dito
Tudo de boa-fé.
Há nesse teu olhar
A doce luz da Lua,
Mas luz que se insinua
A ponto de abrasar...
Pareça nele, sim,
Que há só doçura, embora,
Há fogo que devora...
Que me devora a mim!
Que mata, mas que dá
Uma suave morte;
Mata da mesma sorte
Que uma árvore que há;
Que ao pé se lhe ficou
Acaso alguém dormindo
Adormeceu sorrindo...
Porém não acordou!
Esse teu seio então...
Que encantadora curva!
Como de o ver se turva
A vista e a razão!
Como até mesmo o ar
Suspende a gente logo,
Pregando olhos de fogo
Em tão formoso par!
Ó seio encantador,
Delicioso seio!
Que júbilo, que enleio,
Libar-lhe o néctar, flor!
Eu tenho muita vez
Já visto a borboleta
Na casta violeta
Pousar os leves pés;
E num enlevo tal,
Numa avidez tamanha,
Que a gente a não apanha
Com dó de fazer mal!
Pegada à flor então
No pé curvinho e mole,
As asas nem as bole
Toda sofreguidão!
Pousou... adormeceu!
Só vê, só ouve e sente
O cálix rescendente
Daquele mel do céu!
Pois vê com que prazer
E com que ardente sede
Te havia... que não hei-de!...
Também beijar, sorver!
Mas eu só peço dó,
Só peço piedade!
Mata-me a saudade
Com duas Unhas só!
Eu, a não ser em ti,
Achar alívios onde?
Escreve-me! responde
A carta que escrevi!
Cansado de esperar
Às vezes quando saio,
Pensas que me distraio?
Pois volto com pesar!
Concentra-se-me em ti
A alma de tal modo,
Que esse bulício todo
Nem o ouvi, nem vi!
Ninguém te substitui
Porque só tu és bela!
Que estrela a minha estrela,
E que infeliz que eu fui!
Mas devo-te supor
Sempre indulgente e boa:
Escreve-me e perdoa
Meu violento amor!
Respeita uma afeição
Inútil mas sincera!
Tu és mulher, pondera
O que é uma paixão.
Com sangue era eu capaz
De te escrever; portanto,
Tinta não custa tanto,
E não me escreverás?
Uma palavra, sim,
Que me não amas... queres?
Enquanto me escreveres,
Tu pensarás em mim!
Só essa ideia, crê,
Encerra mais doçura
Que as provas de ternura
Que outra qualquer me dê!
João de Deus
in 'Campo de Flores'
domingo, 29 de maio de 2022
sábado, 28 de maio de 2022
quarta-feira, 4 de maio de 2022
Vagueio Além de Seu Sono
com alma de marinheiro
feliz de chegar a um ponto
sem previsão de roteiro,
mais tonto de o descobrir
que de lhe ser estrangeiro.
Teu continente a dormir
— pouso de barco ligeiro —
pára os relógios num tempo
avesso a qualquer ponteiro:
nem sei se o fico vivendo
ou se te acordo primeiro.
Geir Nuffer Campos
in 'Cantiga de Acordar Mulher'
domingo, 1 de maio de 2022
Amigo velho
(A Martins de Carvalho num dia dos seus anos)
Uma vez encontrámo-nos os doisNesse mar da política; depois,
Como diversa bússola nos guia,
Cada qual foi seu rumo: todavia,
Em certas almas nunca se oblitera
A afeição de um companheiro antigo:
Sou para vós por certo o que então era;
E eu, como então na minha primavera,
Abraço o venerando e velho amigo!
João de Deus, in 'Campo de Flores'
segunda-feira, 18 de abril de 2022
sexta-feira, 8 de abril de 2022
segunda-feira, 4 de abril de 2022
Eu Te Imagino Acordando
para a primeira comunhão do amor.
Teu vestido de rezas (não são rosas)
costuradas por quem
as soube de ouvir também
vais despindo e ficando
com o uniforme natural de nadador;
gesto por gesto, vais passando a perceber
que em teu novo exercício pouco adianta
toda teoria
— como adianta pouco um salva-vidas
a quem prefere, entre dois nados, mergulhar...
Melhor que o nado, o mergulho desvenda
as mais profundas relações de corpo a mar.
Geir Nuffer Campos, in 'Cantiga de Acordar Mulher'
sexta-feira, 1 de abril de 2022
Amores, Amores
Não sou eu tão tola
Que caia em casar;
Mulher não é rola
Que tenha um só par:
Eu tenho um moreno,
Tenho um de outra cor,
Tenho um mais pequeno,
Tenho outro maior.
Que mal faz um beijo,
Se apenas o dou,
Desfaz-se-me o pejo,
E o gosto ficou?
Um deles por graça
Deu-me um, e, depois,
Gostei da chalaça,
Paguei-lhe com dois.
Abraços, abraços,
Que mal nos farão?
Se Deus me deu braços,
Foi essa a razão:
Um dia que o alto
Me vinha abraçar,
Fiquei-lhe de um salto
Suspensa no ar.
Vivendo e gozando,
Que a morte é fatal,
E a rosa em murchando
Não vale um real:
Eu sou muito amada,
E há muito que sei
Que Deus não fez nada
Sem ser para quê.
Amores, amores,
Deixá-los dizer;
Se Deus me deu flores,
Foi para as colher:
Eu tenho um moreno,
Tenho um de outra cor,
Tenho um mais pequeno,
Tenho outro maior.
João de Deus
in 'Campo de Flores'
sexta-feira, 25 de março de 2022
sábado, 19 de março de 2022
quinta-feira, 17 de março de 2022
sexta-feira, 4 de março de 2022
Das Vozes que Te Embalavam
Das vozes que te embalavam
a esperança de menina
moça
guardaste mais, de tanto repisadas,
as perfumadas lições
da nobre arte de agarrar um homem.
De como te fazeres desejada,
amada porventura,
tudo aprendeste: os gestos, os meneios,
a graça de sorrir e de calar.
Hoje tens o teu homem
disposto a desdobrar-se em pão e vinho
para apagar tua fome.
por isso, que lhe hás de dar:
o trigo de tua pele, as uvas de tua boca?
Se sem a ponte do amor, tua lavoura é tão pouca...
Acorda: onde estão as vozes que te ensinaram a amar?
Geir Nuffer Campos, in 'Cantiga de Acordar Mulher'
quarta-feira, 2 de março de 2022
terça-feira, 1 de março de 2022
Avarento
Puxando um avarento de um pataco
Para pagar a tampa de um buraco
Que tinha já nas abas do casaco,
Levanta os olhos, vê o céu opaco,
Revira-os fulo e dá com um macaco
Defronte, numa loja de tabaco...
Que lhe fazia muito mal ao caco!
Diz ele então
Na força da paixão:
— Há casaco melhor que aquela pele?
Trocava o meu casaco por aquele...
E até a mim... por ele.
Quanto a mim.
Quem não tem coração,
Quem não tem alma de satisfazer
As niquices da civilização,
Homem não deve ser;
Seja saguim,
Que escusa tanga, escusa langotim:
Vá para os matos,
Já não sofre tratos
A calçar botas, a comprar sapatos;
Viva nas tocas como os nossos ratos,
E coma cocos, que são mais baratos!
João de Deus
in 'Campo de Flores'









