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domingo, 17 de maio de 2020

Cisne

Amei-te? Sim. Doidamente!
Amei-te com esse amor
Que traz vida e foi doente... 


À beira de ti, as horas
Não eram horas: paravam.
E, longe de ti, o tempo
Era tempo, infelizmente... 


Ai! esse amor que traz vida,
Cor, saúde... e foi doente! 


Porém, voltavas e, então,
Os cardos davam camélias,
Os alecrins, açucenas,
As aves, brancos lilases,
E as ruas, todas morenas,
Eram tapetes de flores
Onde havia musgo, apenas... 


E, enquanto subia a Lua,
Nas asas do vento brando,
O meu sangue ia passando
Da minha mão para a tua! 


Por que te amei?
                           — Ninguém sabe
A causa daquele amor
Que traz vida e foi doente. 


Talvez viesse da terra,
Quando a terra lembra a carne.
Talvez viesse da carne
Quando a carne lembra a alma!
Talvez viesse da noite
Quando a noite lembra o dia. 


— Talvez viesse de mim.
E da minha poesia... 


Pedro Homem de Mello, in "Adeus"

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