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quinta-feira, 3 de junho de 2021

Nada vale nada

Aqui tenho à mesa de cabeceira o último livro
ainda a cheirar à tinta da tipografia.
Não há dúvida nenhuma que o concebi,
que o realizei, e que, depois disso, com
os magros vinténs que vou ganhando
por estes montes, consegui pô-lo em letra redonda
— a forma material máxima que se pode dar a um escrito.
E, contudo, olho esta realidade que eu tirei do nada,
que bem ou mal arranquei de mim, com o mesmo
desânimo com que olho uma teia de aranha.
E não é por saber de antemão que o livro vai
ser abocanhado ou ignorado.
Não obstante a lei natural que aconselha a que
não haja homem sem homem, é preciso que a santa
cegueira do artista lhe dê a força bastante para,
em última análise, ficar só e confiante.
Ora eu tenho, como artista, essa cegueira.
O meu desalento vem duma voz negativa que me
acompanha desde o berço e que nas piores horas diz isto:
Nada, em absoluto, vale nada.

Miguel Torga, in "Diário (1936)"

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