Aqui tenho à mesa de cabeceira o último livro
ainda a cheirar à tinta da
tipografia.
Não há dúvida nenhuma que o concebi,
que o realizei, e que,
depois disso, com
os magros vinténs que vou ganhando
por estes montes,
consegui pô-lo em letra redonda
— a forma material máxima que se pode
dar a um escrito.
E, contudo, olho esta realidade que eu tirei do nada,
que bem ou mal arranquei de mim, com o mesmo
desânimo com que olho uma
teia de aranha.
E não é por saber de antemão que o livro vai
ser
abocanhado ou ignorado.
Não obstante a lei natural que aconselha a que
não haja homem sem homem, é preciso que a santa
cegueira do artista lhe
dê a força bastante para,
em última análise, ficar só e confiante.
Ora
eu tenho, como artista, essa cegueira.
O meu desalento vem duma voz
negativa que me
acompanha desde o berço e que nas piores horas diz isto:
Nada, em absoluto, vale nada.
Miguel Torga, in "Diário (1936)"

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