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quinta-feira, 18 de abril de 2019

Em Cruz não Era Acabado

As crianças viravam as folhas
dos dias enevoados
e da página do Natal
nasciam os montes prateados 


da infância. Intérmina, a mãe
fazia o bolo unido e quente
da noite na boca das crianças
acordadas de repente. 


Torres e ovelhas de barro
que do armário saíam
para formar a cidade
onde o menino nascia. 


Menino pronunciado
como uma palavra vagarosa
que terminava numa cruz
e começava numa rosa. 


Natal bordado por tias
que teciam com seus dedos
estradas que então havia
para a capital dos brinquedos. 


E as crianças com a tinta invisível
do medo de serem futuro
escreviam os seus pedidos
no muro que dava para o impossível, 


chão de estrelas onde dançavam
a sua louca identidade
de serem no dicionário
da dor futura: saudade. 


Natália Correia, in 'O Dilúvio e a Pomba'

1 comentário:

Unknown disse...

Que lindo!!