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segunda-feira, 22 de julho de 2019

Autobiografia de um Só Dia

(A Maria Dulce e Luiz Tavares)

No Engenho Poço não nasci:
minha mãe, na véspera de mim, 

veio de lá para a Jaqueira,
que era onde, queiram ou não queiram, 

os netos tinham de nascer,
no quarto-avós, frente à maré. 


Ou porque chegássemos tarde
(não porque quisesse apressar-me, 

e se soubesse o que teria
de tédio à frente, abortaria) 

ou porque o doutor deu-me quandos,
minha mãe no quarto-dos-santos, 

misto de santuário e capela,
lá dormiria, até que para ela, 

fizessem cedo no outro dia
o quarto onde os netos nasciam. 


Porém em pleno Céu de gesso,
naquela madrugada mesmo, 

nascemos eu e minha morte,
contra o ritual daquela Corte 

que nada de um homem sabia:
que ao nascer esperneia, grita. 


Parido no quarto-dos-santos,
sem querer, nasci blasfemando, 

pois são blasfêmias sangue e grito
em meio à freirice de lírios, 

mesmo se explodem (gritos, sangue),
de chácara entre marés, mangues. 


João Cabral de Melo Neto, in 'A Escola das Facas'

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