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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Calçada de Carriche

Luísa sobe, sobe a calçada, 
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe sobe a calçada. 


Saiu de casa de madrugada;
regressa a casa é já noite fechada.
Na mão grosseira, de pele queimada,
leva a lancheira desengonçada.
Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada. 


Luísa é nova, desenxovalhada,
tem perna gorda, bem torneada.
Ferve-lhe o sangue de afogueada;
saltam-lhe os peitos na caminhada.
Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada. 


Passam magalas, rapaziada,
palpam-lhe as coxas, não dá por nada.
Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada. 


Chegou a casa não disse nada.
Pegou na filha, deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa numa golada;
lavou a loiça, varreu a escada;
deu jeito à casa desarranjada;
coseu a roupa já remendada;
despiu-se à pressa, desinteressada;
caiu na cama de uma assentada;
chegou o homem, viu-a deitada;
serviu-se dela, não deu por nada.
Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada. 


Na manhã débil, sem alvorada,
salta da cama, desembestada;
puxa da filha, dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa, desengonçada;
anda, ciranda, desaustinada;
range o soalho a cada passada;
salta para a rua, corre açodada,
galga o passeio, desce a calçada,
desce a calçada, chega à oficina
à hora marcada, puxa que puxa,
larga que larga, puxa que puxa,
larga que larga, puxa que puxa,
larga que larga, puxa que puxa,
larga que larga; toca a sineta
na hora aprazada, corre à cantina,
volta à toada, puxa que puxa,
larga que larga, puxa que puxa,
larga que larga, puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa é já noite fechada.
Luísa arqueja pela calçada.
Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada,
sobe que sobe, sobe a calçada,
sobe que sobe, sobe a calçada.
Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada. 


António Gedeão, in 'Teatro do Mundo'

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