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quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O Pai

Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece. 


Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces. 


Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte. 


Depois... Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra. 


Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue. 


O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar... E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces. 


Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino... 


E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei. 


Pablo Neruda, in "Crepusculário"
Tradução de Rui Lage 


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