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terça-feira, 12 de novembro de 2019

Poema da Eterna Presença

Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva,
de olhos postos no céu, e reparo, com alegria,
que as dimensões do infinito não me perturbam.
(O infinito! Essa incomensurável distância de meio metro
que vai desde o meu cérebro aos dedos com que escrevo!) 


O que me perturba é que o todo possa caber na parte,
que o tridimensional caiba no dimensional, e não o esgote. 


O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim,
de mim, pobre de mim, que sou parte do todo.
E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas
porque eu não sou braço nem sou perna. 


Se eu tivesse a memória das pedras que logo entram em queda 
assim que se largam no espaço sem que nunca nenhuma se 
tivesse esquecido de cair; se eu tivesse a memória da luz
que mal começa, na sua origem, logo se propaga, sem que 

nenhuma se esquecesse de propagar; os meus olhos reviveriam 
os dinossáurios que caminharam sobre a Terra, os meus ouvidos
lembrar-se-iam dos rugidos dos oceanos que engoliram
continentes, a minha pele lembrar-se-ia da temperatura 

das geleiras que galgaram sobre a Terra. 

Mas não esqueci tudo.
Guardei a memória da treva, do medo espavorido do homem da caverna
que me fazia gritar quando era menino e me apagavam a luz;
guardei a memória da fome; da fome de todos os bichos de todas as eras,
que me fez estender os lábios sôfregos para mamar quando cheguei 

ao mundo; guardei a memória do amor, dessa segunda fome de todos os 
bichos de todas as eras, que me fez desejar a mulher do próximo e do
distante; guardei a memória do infinito,
daquele tempo sem tempo, origem de todos os tempos,
em que assisti, disperso, fragmentado, pulverizado, à formação do Universo. 


Tudo se passou defronte de partes de mim.
E aqui estou eu feito carne para o demonstrar,
porque os átomos da minha carne não foram fabricados de propósito para mim.
Já cá estavam. Estão. E estarão. 


António Gedeão, in 'Poemas Póstumos'

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