Penso saber que o amor não tem nada que ver com a idade,
como acontece
com qualquer outro sentimento.
Quando se fala de uma época a que se
chamaria de descoberta do amor,
eu penso que essa é uma maneira redutora
de ver as relações entre as pessoas vivas.
O que acontece é que há toda
uma história nem sempre
feliz do amor que faz que seja entendido que o
amor numa
certa idade seja natural, e que noutra idade extrema poderia
ser ridículo.
Isso é uma ideia que ofende a disponibilidade de entrega
de uma pessoa a outra, que é em que consiste o amor.
Eu não digo isto por ter a minha idade e a relação de amor que vivo.
Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte
conforme as
idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira,
e se acontece,
há que recebê-lo.
Normalmente, quem tem ideias que não vão neste
sentido,
e que tendem a menosprezar o amor como factor de
realização
total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio
de vivê-lo,
aqueles a quem não aconteceu esse mistério.
José Saramago, textos
in "Revista Máxima, Outubro 1990"

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