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domingo, 6 de setembro de 2020

Cada homem só se pode salvar ou perder sozinho

Também eu acredito que a existência precede a essência.
Que tudo começa quando o coração pulsa pela primeira vez,
e tudo acaba quando ele desiste de lutar.
Que todas as paisagens são cenários do nosso drama pessoal,
comentários decorativos da nossa aventura íntima e profunda.
E que, por isso, cada homem só se pode salvar ou perder
sozinho, e que só ele é o responsável pelos seus passos,
que só as suas próprias raízes são raízes, e que está nas suas mãos
a grandeza ou a pequenez do seu destino.
Companheiro doutros homens, será belo tudo quanto de acordo
com o semelhante fizer, todas as suas fraternidades necessárias
e louváveis.
Mas que será do tamanho e da qualidade da sua realização singular,
da força da sua unidade, da posição que escolheu e da obra que realizou,
que a consciência lhe perguntará dia a dia, minuto a minuto.

Miguel Torga, in "Diário (1949)"

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