Explicar Portugal!
As vezes que o tenho tentado para governo próprio e
alheio!
Mas dou sempre com a verruma em prego.
O que digo ou escrevo
nunca me satisfaz, mesmo quando os outros se dão por esclarecidos.
Parecendo que não, é misteriosa esta realidade pátria.
Pequenez
territorial infinitamente diversificada, palco de uma História
que excede as crónicas, berço de um povo de impenitentes vagamundos,
toda a
descrição a diminui e nenhuma síntese a resume.
Cabe nos mapas mas não
cabe nas palavras.
Vocação nacional acordada na bruma dos tempos, a mais
ou das mais
antigas da Europa, apetece nimbá-la de um halo de
predestinação,
olhá-la como o desígnio de uma suprema vontade.
E, ao fim
e ao cabo, é na singela simplicidade de uma génese natural
que talvez
consista o singular fascínio da sua existência multissecular.
O bom não é
nascer feito, é fazer-se.
E Portugal fez-se.
Como, é que causa
engulhos.
A assumir--se, a pelejar, a empreender, a perseverar.
E a
verdade é que tem um rosto inconfundível.
O rosto da liberdade contra
todos e contra tudo,
quanto mais em perigo mais confiado.
É esse rosto,
ao mesmo tempo flagrante e enigmático,
convivente e arisco, que me
intriga e desafia.
Mas acabo sempre por entendê-lo melhor com o coração
do que com a razão.
Ou não fosse o amor o mais englobante dos nossos
dons.
Miguel Torga, in 'Diário (1985)'

1 comentário:
Bom dia José obrigado pela explicação de Portugal. Boa segunda-feira.
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