Combater é, em termos absolutos, uma diminuição.
O homem, quer defenda a
pátria, quer defenda as ideias,
desde que passa os dias aos tiros ao
vizinho, mesmo
que o vizinho seja o monstro dos monstros,
está a perder
grandeza.
Sempre que por qualquer motivo a razão passou a
servir a
paixão, houve um apoucamento do espirito,
e é difícil que o espírito se
salve num processo
onde ele entra diminuído.
Mas quando numa comunidade
alguém endoidece
e desata a ferir a torto e a direito, é preciso dominar
o possesso de qualquer forma, e a guerra é fatal.
Então, embora sabendo
que vai empobrecer a sua alma,
o homem normal começa a lutar, e só a
morte ou o
triunfo o podem fazer parar.
É trágico, mas é natural.
O que é
contra todas as leis da vida é ficar ao lado
da contenda como
espectador.
Sendo uma diminuição combater, é uma traição sem nome
lavar
as mãos do conflito, e passar as horas de binóculo
assestado a
contemplar a desgraça do alto dum monte.
Assim é que nada se salva.
Fica-se homem sem qualquer sentido, manequim vestido
de gente, coisa que
não tem personalidade.
Porque nem se representa a inteligência, nem o
instinto,
nem qualquer das forças que nos fazem viver.
É-se, mas apenas
estátua de carne petrificada no meio
dum mundo onde sempre é preciso
tomar posição, optar,
para merecer o equilíbrio final que a própria
catástrofe implica.
Miguel Torga, in "Diário (1944)"

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